Vício

Enquanto despede-se o sol da Terra, toma forma o crepúsculo e os pássaros deixam a janela do seu quarto, Alice acorda. Abre seus olhos mas, em sua apatia, continua deitada, tentando lembrar-se de como conseguiu chegar em casa nesta manhã, enquanto admira o teto branco. Branco! Num impulso de um reflexo instintivo, vira-se, pega a bolsa ao seu lado e, com as mãos trêmulas, começa a vasculhá-la, na procura desesperada daquilo que sabe que não vai encontrar. Depois de alguns minutos nessa busca angustiante, enfim admite a inegável realidade: o pó acabou. Na sua insistência ao menos conseguiu encontrar o plástico no qual outrora o seu anseio fora embrulhado. Lança-o na boca e mastiga-o obstinadamente na tentativa desesperada de dele sorver algum suco de alívio. Mas nada consegue, nem mesmo o suficiente para enganar a língua. Desolada, enfim levanta-se e, cambaleante, entra no banheiro, lava o rosto e olha-se no espelho. As olheiras profundas das contínuas noites insones espelham os olhos de desespero. Percebe então que a garotinha ingênua que era, despediu-se do seu corpo, fechou a porta e se foi. Restou apenas a ideia de sua sombra e o desalento. E junto dessa constatação vem a lembrança do seu primeiro teco. “É para esquecer”, dizia a si mesma e aos outros. Esquecer o quê? Não se lembrava mais. Mas muitas outras coisas havia também para serem esquecidas, então por que parar? E sem mais saber ao certo os motivos que a incitaram a iniciar ou o tempo que levou nessa jornada, continua agora apenas para esquecer aquilo que se tornou. Sente vontade de gritar, mas a garganta seca ainda arranha por causa dos excessos químicos da noite anterior. Não pensa mais em chorar: já se acostumou com a dor. E nada espera do amanhã, pois, por mais que não deseje, ela sabe onde estará novamente esta noite.
Lava mais uma vez o rosto para se livrar de tais pensamentos e então dá início ao seu ritual diário. Abre o chuveiro e com a esponja arranca o ranço dos homens de sua pele, deixa a água cair sobre seus cabelos e retira o fedor da fumaça dos seus cigarros, passa seu batom e disfarça as feridas causadas pelos paus dos seus mecenas, se perfuma e esquece a fetidez do suor dos seus michês, se maquia, remove suas olheiras e, renovada, olhando-se novamente no espelho, chega a acreditar que a garotinha ingênua está de volta. E então enxuga a lágrima que ameaça cair e borrar sua maquiagem, pois ela sabe que não poderá levar aquela garotinha consigo esta noite.
Volta ao seu quarto, veste-se, calça seus sapatos, pega sua bolsa e sai. A boceta ainda arde, mas o nariz já parou de sangrar. E iluminada pela luz amarelada dos postes da cidade, Alice, novamente perseguindo o irrequieto coelho branco, volta ao seu desesperador país das maravilhas!
E ao amanhecer do próximo dia, apesar de ter aberto mão do seu amor próprio para conseguir mais algumas carreiras que a façam continuar esquecendo daquilo que não se lembra, voltará para casa com um sorriso nos lábios borrados, de uma alegria quase verdadeira, caminhando com seus saltos altos no negro e sujo asfalto, pisando em merda de cães e com baratas subindo pelas suas pernas, imaginando delirante estar deslizando, feliz e glamourosa, na Times Square coberta com a mais branca das neves.
Mas em algum lugar, sozinha e abandonada, aquela garotinha ingênua ainda estará chorando...