Autoestima

O carro parou. Ela desceu e com um beijo rápido despediu-se do seu novo amante. Passou pela portaria do prédio, cumprimentou o porteiro, entrou no elevador que já estava à espera no hall, apertou o botão do quinto andar e, quando se fecharam as portas, aliviada suspirou. Não precisava mais mentir.
Mentir. Uma constante em sua história. Sempre demonstrava a todos o quanto se sentia feliz com a vida que possuía, enquanto na verdade tinha medo que descobrissem o quão mesquinha se sentia, que suspeitassem que chorava sozinha no seu quarto se lamentando da vida de sucesso e amor que sempre desejou, mas nunca alcançou. Os 30 anos já se aproximavam e as conquistas da sua vida se resumiam a um guarda-roupas abarrotado de marcas. Disfarces para um corpo em decomposição. Quando se sentira realizada? Seria demais pedir uma vida da qual pudesse se orgulhar? Ela não merecia isso? Olhou-se no espelho do elevador. Pupilas dilatadas e olhos vermelhos. Dilatadas por causa do pó e vermelhos por causa da maconha e do choro que não conseguia mais conter. Nesta noite, mais uma vez foi usada. Ou mais uma vez se usou? Não sabia ao certo, tantas vezes já tinha repetido o ato. Sentiu asco ao se lembrar daquele corpo porco, suado e desesperado, penetrando o seu. Limpou o vestígio de sangue do nariz ferido pela cocaína, arrumou o cabelo e tentou esquecer.
Esquecer. Foi justamente isso que a levou a ir naquele quarto de motel nesta noite. “A casa da Barbie”. Riu ao lembrar-se dessa referência – seria o delírio da maconha? Mas o sorriso logo se foi – seria a depressão do pó? No fim, restou apenas o arrependimento. Naquela noite ela só desejava encontrar um novo amor para esquecer o último e sentir-se novamente desejada. O pó e a maconha lhe deram coragem. Coragem para escolher o primeiro que encontrou. Como sempre. E como sempre, se arrependeu.
Arrependimento. Seu eterno companheiro. Buscava desesperadamente alguém que pudesse dar valor à vida da qual se envergonhava, que lhe desse a admiração que acreditava merecer. Mas seus esforços sempre eram em vão. Por mais que por completo se entregasse, nunca se sentia plenamente retribuída, devidamente valorizada. Lançava-se de cabeça a cada novo relacionamento, a cada nova paixão, sempre desejando ser proporcionalmente retribuída, ser tão intensamente amada, mas nunca nenhum dos seus contos de fadas chegou ao tão desejado capítulo do felizes para sempre. Antes disso sempre vinha a rejeição, a decepção e o abandono. Sempre culpava aos seus amantes. Sempre se esquecia de culpar a si própria.
O sinal do elevador a despertou de tais inquietações. Quinto andar. Saiu, pegou na bolsa as suas chaves e, nas pontas dos pés, entrou no apartamento onde morava. Já eram cinco da manhã. Pensou em tomar um banho, tirar o cheiro horrível daquele erro do seu corpo. Mas já era madrugada, não queria acordar os pais: seria outro erro. Não queria que a vissem na situação em que se encontrava, drogada, infeliz, decadente. Eles a amavam. Mas não quem ela realmente era e sim aquela que ela encenava ser. Uma personagem para cada situação, uma máscara para cada cena: a filha ingênua e adorável para os pais, a companheira apaixonada para os namorados, a jovem bem sucedida e alegre para os amigos, a garota sexy e confiante para os novos amantes. Uma vida de mentiras. Mas sempre ao olhar-se no espelho, tinha a mesma visão que Dorian Gray do seu retrato. Mesmo nunca tendo lido Oscar Wilde. Foi para o banheiro, lavou rapidamente o rosto, entrou no seu quarto, trancou a porta e despiu-se para deitar-se. E então, sozinha no escuro, pode ver quem realmente era: sem roupas de marca, bolsas de grife, maquiagem importada e sorrisos falsos, restava apenas a garota frágil, sensível e infeliz que sempre foi.
Segurando o choro, deitou-se, encostou a cabeça no travesseiro e, pela primeira vez naquela noite, abriu um sorriso sincero. Iria dormir e, ao menos no sono, não precisaria mais mentir. Pelo menos por algumas horas deixaria para trás o mundo abominável que a angustiava e, sossegada, poderia sonhar com a vida perfeita, sem mágoas e sem mentiras, que ela sempre desejou. Aliviada, fechou os olhos.
Mas o sono não veio. Quando finalmente conseguiu dormir, o sol já estava alto.
Terá sido a cocaína? Ou a tristeza?