Desorientação

Parque Felicidade,
Bairro do Amor,
onde os sorrisos passeiam de mãos dadas com os dias,
beijos e abraços dizem mais do que palavras,
o coração bate de um jeito diferente
e não há preocupações nem dor.

Travessa Indiferença,
ao final da Rua Distanciamento,
local escuro que não sabemos ao certo como chegamos,
qual caminho errado pegamos,
só percebemos que aqui estamos
e por mais que procuremos, sua saída não encontramos.

Cemitério dos Sentimentos,
no alto do Morro Descontentamento,
lugar no qual almas gêmeas se separam,
desejos são abortados,
o amor amputado
e os sonhos sepultados.

Avenida Corações Partidos,
esquina com a Rua Solidão,
onde corpos mutilados pela tristeza vagueiam
arrastando seus espíritos feridos,
trazendo consigo seu tórax aberto,
seu peito vazio e o fardo da paixão.

Praça Almas Desesperançosas,
em frente à Ladeira Suicídio,
onde homens cansados de caminhar
e em nenhum lugar chegar
nos bancos seus corpos cadavéricos deixam cair
enquanto tentam se decidir sobre qual caminho seguir.

Parque Felicidade,
Bairro do Amor,
lugar para onde todos que vagueiam nesta cidade
de desilusões e ressentimentos almejam retornar,
mas perdidos no frio labirinto dessas ruas sujas,
já cansados e com os pés sangrando de tanto andar
não conseguem mais seu caminho reencontrar.



Insanidade

Por que te punes homem?
Encarcerado estás agora em sua casa,
suando e enlouquecendo detrás de portas e janelas fechadas
enquanto as cortinas cerradas te impedem de ver
que lá fora o sol continua a brilhar,
namorados apaixonados trocam juras de amor na praça do bairro
enquanto você isolado em seu quarto
escreve notas de suicídio que tem vergonha de publicar,
os bares estão repletos de amigos brindando à felicidade
e você aí sozinho se envenenando com vinho vagabundo
só com um  maço de cigarros pra te acompanhar,
todos que fizeram parte do seu passado estão seguindo em frente,
construindo um futuro, enquanto você,
sem nem mesmo saber que dia é hoje
está com a vida estagnada, a se lamentar,
pois saibas que hoje é domingo,
famílias lotam as casas das mães e avós para almoçar
enquanto você, em sua obsessão de solidão,
sequer percebe que está há dois sem se alimentar,
gaivotas voam sob um céu azul, sobre um mar azul
ao mesmo tempo em que você, sobre a sua cama
fita o teto branco sem conseguir se levantar
e lá fora, no horto ao lado de sua casa,
borboletas pousam nas flores e acariciam suas pétalas,
enquanto você, em sua loucura, pesa o botijão de gás
para se certificar de que há o suficiente para se matar.
Ainda não percebestes homem?
Você pode tentar da vida fugir bebendo até desmaiar,
mas sabe que em algum momento irá acordar
e sua realidade novamente terá de encarar,
pois por mais que chores, se martirize ou se automutile
o que passou você não pode mudar,
as cicatrizes que infligiu ao seu coração tu não podes apagar
e mesmo que elas não o deixem mais bater como outrora
e mesmo que você não queira, ele continua a pulsar.
Não sejas tolo homem, tu se prendes nessa casa,
cerra-se em ti mesmo
mas não percebes que justamente de ti
que precisas escapar.

Persistência

Aparentemente é uma casa sem vida,
do lado de fora não nota-se nenhum movimento,
a poeira e o lixo vindos da rua acumulam-se na entrada
e por trás da porta e janelas fechadas
é possível escutar somente o som do silêncio.
Mas o que não sabem as vizinhas ociosas
que de suas janelas filosofam,
nem os apressados transeuntes que
em sua frente distraídos passam,
é que naquela casa aparentemente morta
a vida floresce em paz e em constante frenesi:
em busca de restos, baratas percorrem livres
o imundo campo de cerâmica branca da cozinha
sem a preocupação de serem pisoteadas,
pelos cantos das paredes abandonadas
aranhas tricotam suas teias e embalam seus ovos
sem o medo do genocídio da faxina,
Aedes Aegypti procriam na água parada da latrina
orgulhosos do futuro exército de kamikazes
que será formado por sua mais nova prole,
bactérias, agora não mais ameaçadas por defesas inimigas,
se proliferam exponencialmente e aumentam sua comunidade
dentro de um universo prestes a explodir,
ratazanas arrancam nacos da carne pobre caída no chão
voltando apressadas a suas tocas para
com o leite rico em proteínas alimentarem suas ninhadas
e moscas festejam freneticamente sobre o banquete disponibilizado
pelas louças sujas há muito inertes na pia
enquanto assistem as larvas de seus filhos crescerem
ao se fartarem com o nutritivo e pútrido manjar
oferecido pelo morador dessa residência.
A casa, que do seu exterior aparenta estar morta,
na verdade expande-se num contínuo universo em evolução
onde a vida inexoravelmente continuará a persistir
até o momento em que seu proprietário,
em busca do pagamento do aluguel atrasado, a porta arrombar
e o corpo morto do seu inquilino no chão da cozinha encontrar,
velado e festejado pelos bichos, já a se deteriorar.